Sociólogo Carlos Pérez fala conosco sobre a “busca pela paz” em Jequié.

17/11/2011

JN: Recentemente houve uma grande mobilização em Jequié - contando com cerca de 10 mil pessoas - que foram às ruas pedir pela paz em nossa cidade. Como o senhor enxerga a probabilidade de êxito deste ato, levando em consideração o tamanho empenho por parte da população? Pérez Acredito que o sucesso desse ato exige também, a participação das autoridades para que a violência seja controlada. As pessoas terão que continuar se mobilizando até conseguir a sensibilização dos órgãos competentes nessa luta. Acredito que temos que enxergar como atuam “os indignados” na Europa e os EEUU. JN: Podemos entender que para haver realmente a paz ela deva se estender por todas as relações interpessoais, como por exemplo, no trânsito, na fila do banco, no caixa de supermercado. A idéia de violência ainda sendo restrita para muitos como sendo apenas os atos radicais: assalto, roubo, assassinato etc., impossibilita a real necessidade de mudança para alcançar a harmonia tão sonhada? Pérez Entendo que essas relações interpessoais se modificam com educação e conscientização que vai desde a família até a escola com o incentivo, insisto, das instituições públicas. Com respeito ao trânsito, por exemplo, a pergunta é: quem controla? Onde estão os órgãos públicos que tem que tomar conta do trânsito? Quem regimenta os moto-taxi? JN: A competição, tão debatida hoje em dia no mundo mercadológico, no meio acadêmico, na sociedade em si, seria uma entrave para constituição de ambientes harmônicos, ou existe de fato a “boa competição”? Pérez A competição sempre existiu. O problema é quando a mesma vira uma questão de “vida ou morte” para satisfazer interesses não da população e sim do mercado. O meio acadêmico não está fora, infelizmente, dessa realidade. A palavra cidadania parece esquecida (propositalmente) em favor do discurso da “qualidade”. Na verdade esse discurso mascara qualidade de primeira classe para uns (poucos) e qualidade de segunda para outros (os muitos). JN: A droga hoje em dia, conforme demonstra a mídia em geral, se não é a principal causa da violência no país, pode se tornar daqui a um tempo. Como o senhor observa esta relação de causa e efeito? Pérez A droga é uma doença, mas também um problema político e social. Deveríamos nos perguntar o que gera a droga? Não será que a falta de oportunidades dos jovens, a pobreza, a péssima educação gera isso? Então pensemos em combater as causas antes que pensar as consequências como inevitáveis. JN: Em sua opinião, para o caso específico de Jequié, quais os caminhos que deveríamos traçar para diminuirmos os níveis de violência e alcançarmos a paz? Pérez A paz social será difícil de alcançar entanto continue a gritante pobreza de alguns bairros da cidade. E se fala de “controlar” a violência delitiva, digo que isso não é só uma questão policial é, também, educação e saúde para todos.