Existe lógica nas relações humanas?. Por Lucas Ribeiro Novaes.

19/04/2012

Infelizmente, a tendência mais comum entre os humanos é considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos demais um alto grau de irracionalismo. O primata, como ironizou um antropólogo físico, não foi promovido da noite para dia ao posto de homem. O conhecimento científico atual está convencido que o salto da natureza para a cultura foi continuo e incrivelmente lento. Ainda sim, não são poucas as iniciativas de algumas instituições, como a família, a escola e a igreja, no sentido de tentar, a todo custo, naturalizar tipos de comportamentos, com o intuito de sustentar hierarquias e normas de controle social. Com a percepção comprometida pela necessidade de defesa de seus interesses, grupos dominantes analisam a realidade objetiva sob a perspectiva de seus valores, considerando anormal todo tipo de conduta que fuja dos padrões que foram criteriosamente estabelecidos ao longo da história. Fingimos ser indiferentes ao fato de no Brasil, a cor que represente o luto seja o preto e na China o branco. Que em algumas tribos indígenas o infanticídio seja encarado com extrema naturalidade e que em alguns clãs do hemisfério norte, em determinado momento, os pais sejam levados pelos próprios filhos ao topo de uma montanha onde são despidos e servidos como alimento para os ursos polares. Contudo, não somos indiferentes quando a diversidade cultural questiona a égide da moral normativa, nem muito menos problematizamos as questões que incidem sobre as desigualdades sociais que assola e estigmatiza determinados grupos a centenas de anos. Como asseverou Montaigne: “na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”. Ator e autor de sua própria história, o homem vem a milhares de anos transformando o ambiente natural a favor de seus interesses e de suas ambições. Provido de propriedades únicas dentro do reino animal, nos destacamos entre todas as outras espécies pela nossa capacidade de produzir cultura, ou seja, de decodificar, estilizar, acumular e transmitir signos e símbolos que são os constituintes de nosso mais sofisticado mecanismo de dominação: a linguagem. Infelizmente, a tendência mais comum entre os humanos é considerar lógico apenas o próprio sistema e atribuir aos demais um alto grau de irracionalismo. Essa postura forjou o etnocentrismo e o heteronormativismo na nossa cultura, algo que vêm contribuindo significativamente para a disseminação da violência entre grupos de indivíduos que não compartilham das mesmas ideias e dos mesmos princípios. Acho que foi Marion Levy quem disse: “nenhum sistema de socialização é idealmente perfeito, em nenhuma sociedade são todos os indivíduos igualmente bem socializados, e ninguém é perfeitamente socializado”. Então, como podemos exigir do outro, uma conformação, ou melhor, um enquadramento perfeitamente assimétrico dentro das normas de uma sociedade líquida, alicerçada em valores fluidos e inconstantes? Sabemos que resultaram frustradas todas as tentativas de provar que as mulheres constituem um gênero inferior, que os negros são intelectualmente defasados com relação aos brancos e que os homossexuais são representações simbólicas do demônio na terra. Contudo, na defesa de seus privilégios, a igreja, a escola e, sobretudo a família burguesa, tenta, de todas as formas, estabelecer normas de comportamento social passando assim, a falsa impressão de que estão defendendo a ordem e a moral, valores divinizados e que precisam ser protegidos por aqueles que demonstram ser mais “íntimos de Deus” ou melhor, portadores de suas palavras, estas, sempre ricas de duplo sentido. Lucas Ribeiro Novaes Estudante de Psicologia 8º Semestre