24/01/2012
Documentarista Dado Galvão nos fala sobre o tão comentado Conexão Cuba-Honduras.

JN: Dado, o documentário Conexão Cuba-Honduras ganhou grande repercussão na mídia brasileira e até mesmo internacional, mas até então a visita a Cuba foi para participar de um festival. Conte para nós como surgiu a idéia da criação deste filme e do que o mesmo retrata.

Dado: Eu fui a Cuba em dezembro de 2009 para participar do UNIAL – Universo Audiovisual de Crianças e Adolescentes da América - Latina. Apresentei no evento o documentário “A Grande Moeda”, que tem a participação da Dra. Zilda Arns.

Antes da viagem, minha mãe me mostrou uma entrevista da blogueira Yoani Sánchez, nas páginas amarelas da revista Veja. Eu li e gostei, então a idéia surgiu. Em seguida, aconteceram os fatos em Honduras; retirada do presidente Zelaya do poder, envolvimento da diplomacia brasileira, cerco a embaixada do Brasil, foi então que resolvi conferir de perto.

CUBA
Yoani Sánchez (blogueira e escritora), Reinaldo Escobar (jornalista, esposo de Yoani) lutam em Cuba com os seus blogs por liberdade de expressão. Mulheres que formam o grupo “Damas de Branco” saem pelas ruas de Havana no Dia Internacional dos Direitos Humanos reivindicando pacificamente o respeito aos direitos humanos e a liberdade na ilha. Elas chegam a serem perseguidas nas ruas por cubanos, pró-governo. Ativistas na clandestinidade espalhados por todo país formam uma grande rede denominada de Conselho de Ativistas de Direitos Humanos de Cuba, coordenada por Juan Carlos, um advogado que mesmo sendo cego é aguerrido na batalha.

No Brasil, o senador Eduardo Suplicy faz várias tentativas junto ao governo brasileiro para que Sánchez consiga autorização do governo cubano para vir ao país, em sua última investida escreveu uma carta para o ex-presidente Fidel Casto.

HONDURAS
Em 28 de junho de 2009 o presidente constitucional hondurenho Manuel Zelaya é retirado à força do poder pelo exército, assume a presidência da República Roberto Micheletti. No mesmo dia, a emissora de televisão Canal 36 foi militarizada e todos os seus equipamentos aprendidos.

Esdras Amado López (diretor, e o mais popular jornalista do canal) narra a perseguição sofrida pelo então governo de Micheletti, e sua luta pela reabertura do Canal 36.. O Canal 36 foi um dos primeiros meios de comunicação a informar que o presidente Zelaya tinha entrado clandestinamente em Honduras e estava na embaixada do Brasil, em Tegucigalpa (Honduras), sendo o canal acusado de promover terrorismo midiático.

Clique aqui e assista ao trailer do filme (com imagens cedidas gentilmente pelo Canal):
TEMPO DO FILME: 105 minutos

MOMENTOS DE TENSÃO
Em Cuba, apesar de ter o visto de jornalista, não me apresentei ao Centro de Imprensa Internacional, como todo jornalista estrangeiro é obrigado a fazer. Quando fui descoberto já tinha entrevistado muita gente, sofri ameaça de expulsão e prisão, mas como estava em Cuba a convite, contribuiu para que as ameaças não se concretizassem. Em Honduras tive medo, estava filmando nos arredores da embaixada do Brasil, quando fui cercado pelas costas por policiais do exército hondurenho, que pediram aos gritos que eu colocasse a filmadora no chão e entregasse o passaporte. Um veículo da ONU que levava alimentos e água para embaixada do Brasil, chegou no momento em que os policiais me abordavam. O veículo chamou a atenção dos policiais, peguei a câmera coloquei na mochila, o passaporte foi devolvido depois de uns 5 minutos, sob ameaças de que se voltasse ali novamente seria preso. Vi muitas pessoas armadas pelas ruas da capital Tegucigalpa, um índice altíssimo de homicídios por arma de fogo. Jornalista é tratado à bala em Honduras ainda hoje. Segundo a organização Repórteres sem Fronteiras, é um dos lugares mais perigosos para trabalhos jornalísticos no mundo.


JN: O documentário ganhou ainda mais visibilidade quando o governo cubano negou o convite feito por você a blogueira daquele país, Yoani Sanchez, a vir a Jequié e participar do lançamento. Você imaginou que esta negativa teria esta imensa divulgação na mídia e até mesmo no meio político?

Dado: A divulgação na mídia nasceu de um conjunto de fatores: temática, Cuba, Yoani Sánchez, senador Suplicy, a história de como viajei para gravar o documentário, negativas do governo cubano e como estamos construindo o evento.

Escrevi para o senador Suplicy em 2010, e relatei o que ocorreu em minha viagem a Cuba e Honduras, e ele já acompanhava o trabalho de Yoani Sánchez. Desde então, o senador tem tentado dialogar com autoridades cubanas e brasileiras sobre o assunto. Sem o apoio do senador Suplicy não chegaríamos aonde chegamos.

Recomendo a leitura da Carta do senador Suplicy para o ex-presidente Fidel Castro, que foi publicada na Revista Caros Amigos. Clique aqui confira.

Recomendo também aos leitores a reportagem da Revista Época, que descreve com detalhes nossa caminhada na construção de Conexão Cuba Honduras. Clique aqui.


JN: Necessita-se de recursos financeiros para realização de um evento de tão grande porte. Como você está enfrentando está situação hoje em dia.

Dado: Todo o projeto está sendo construído graças o apoio das Organizações Euclides Fernandes (93FM, Jornal de Jequié, FIEF), apoio para confecção das peças publicitárias de Sérgio Costa Propaganda, da disponibilização de fitas de vídeo por Geraldo Fotografias, e de um apoio no relacionamento com o comercio através Marcos Taboca. Conexão Cuba>Honduras foi construído com solidariedade, ajuda do comércio local e graças ao empenho pessoal do jornalista Euclides Fernandes, através de suas empresas.

A maior dificuldade foi convencer a atual secretária de educação de Jequié, liberar a câmera para que eu pudesse seguir viagem. Depois de muitos pedidos a câmera foi liberada, então foi possível viajar, é vergonhoso, mas foi assim que aconteceu.


JN: De que maneira você acha que o lançamento deste documentário em nossa cidade, seja com a participação ou não de Yoani, tem para a consciência política do povo jequieense?

“Conexão Cuba > Honduras” mostra a violação dos direitos humanos em Cuba, a militarização e perseguição que sofreu o Canal 36 de Honduras quando ocorreu a deposição do presidente Zelaya, em Honduras. Mostra também pessoas nos dois países, lutando por liberdade de expressão e direitos humanos.

O interessante é que podemos trazer para a nossa dimensão os fatos que se passam no filme, por exemplo, sobre liberdade de expressão, meios de comunicação em nossa cidade, nos estados e no país. De quem são? Estão a serviço de quem? Quem são os donos das emissoras de rádio e TV no Brasil? Será que podemos nos expressar de maneira livre sem ser perseguido ou sofrer retaliações? Será que lutamos por nossos direitos constitucionais? Será que esses direitos são respeitados? Através de um grande debate poderemos enriquecer e amadurecer a consciência política de nosso povo.


JN: Este espaço está aberto para você convidar as pessoas a participarem do evento, ou mesmo para informar como elas poderão apoiar esta causa.

(DATA ALTERADA: Exibição do documentário foi adiada para o mês de abril, em data a ser divulgada.)

Dado: A primeira exibição pública do documentário Conexão Cuba > Honduras acontecerá no dia 10 de fevereiro, às 20 horas, Centro de Cultura ACM, com entrada franca. Contará com a presença do senador Eduardo Suplicy e convidados.

O Coletivo Borda da Mata realizará dia 27/01 (sexta-feira), às 20 horas, na Praça Ruy Barbosa um ato em prol em pró de Yoani Sánchez. Chama-se “Solidariedade Digital”, que terá a participação da banda argentina Finlândia e do jequieense, Neubera Kundera.

Para dúvidas, sugestões, elogios, críticas, e como ajudar na divulgação, por favor, acessem www.dadogalvao.org.

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Claudio Galvão da Silva (Dado Galvão) é Ativista, Documentarista, possui graduação em Administração em Marketing pela FTC - Faculdade de Tecnologia e Ciências (2005) com o tema de monografia “Análise do Marketing nas Ações Terroristas de 11 de setembro”. Foi o idealizador e atua como coordenador do projeto A Casa Caiu “O Alerta que Vem do Cárcere!” da Pastoral Carcerária da Diocese de Jequié (BA). Articulista, convidado do Instituto Millenium.

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